O outro como espelho

espelho

Nas primeiras vezes que ouvi que o outro é reflexo do que somos, demorei a aceitar. Como poderia eu imaginar que tudo aquilo que acho feio, que rejeito, que julgo e reclamo do outro poderia ser meu? Isso é um fardo muito pesado pra carregar. Não, isso não poderia ser verdade.

Mas então fui desafiada a me investigar e tirar minhas próprias conclusões. E tive muitas oportunidades de fazer isso e continuo tendo, claro. Encontrar aquilo que detestamos no outro dentro de nós é um ato de muita coragem. É difícil admitir até para nós mesmos que aquele defeito nós também temos. A ação imediata é a de negação.

Mas como isso pode ser verdade? Citemos um exemplo. Se acho uma pessoa egoísta, quer dizer que sou egoísta? Não dessa forma linear. Sempre cabe uma análise mais profunda. Se eu acho realmente muito feio uma pessoa ser egoísta e tenho aquela característica em mim, é natural que eu faça de tudo para não parecer egoísta. Mas isso não impede que haja um desejo em mim, e esse desejo pode ser consciente ou inconsciente. Por exemplo, se estou com muita fome e compro algo para eu comer, mas sei que meu desejo é comer todo aquele pedaço de comida que comprei. De repente aparece um amigo e me sinto compelida a oferecer um pedaço, pois foi assim que aprendi que devo ser, educado. Se eu ouvir atentamente as vozes dentro de mim, pode ser que exista uma não vontade de oferecer ou de dividir. Ou pode ser que exista. O fato é que, se há o desejo e mesmo assim eu dividi, quer dizer que eu reprimi o meu desejo. Então eu não estou aparentando ser egoísta, mas internamente o desejo que tenho revela algo sobre mim quanto ao valor que dei a essa palavra: egoísmo.

Além disso, existe algo que devemos levar em consideração nessa análise: a carga que aquilo ativa dentro de nós. Se eu tenho aceitação de um defeito meu, ainda citando o exemplo do egoísmo, ou mesmo se eu verdadeiramente não sou egoísta, quando eu perceber que alguém perto de mim está sendo egoísta, isso não vai me incomodar. E também não gerará julgamento. Eu simplesmente olho, percebo e aceito. Se não há carga, eu não tenho necessidade de julgar, aquilo não me incomoda.

Posso também citar um exemplo de uma amiga que precisou de uma análise mais subjetiva. Ela tirou uma dúvida em nosso grupo dizendo: “eu detesto gente caloteira, isso quer dizer que sou caloteira também? Mas eu sempre pago tudo que devo…” Então ela foi questionada sobre o que é ser caloteira, em sua visão. No que ela respondeu que ser caloteira é não honrar com o combinado, é trair. E aí a terapeuta lhe jogou a seguinte pergunta: “quantas vezes você combina algo e não cumpre, quantas vezes você se trai?” E aí imediatamente minha amiga se calou. Ela reconheceu que aquilo era verdade.

Ou seja, desse exemplo podemos perceber que muitas vezes precisamos “descascar” aquele defeito pra saber o cerne do que nos incomoda, ele pode vir disfarçado. E aí sim podemos encontrar aquela característica em nós.

Também é importante dizer que “defeito” é um valor que damos a alguma característica pessoal, que não necessariamente é algo ruim. Assim como pode acontecer o contrário, de termos uma característica que julgamos boa e, no fim das contas, ela não nos faz tão bem. Um exemplo disso é o perfeccionismo, que muita gente julga ser uma excelente qualidade. Acontece que ser perfeccionista pode trazer uma grande carga para quem o é. Pode gerar um grande medo de errar e pode trazer também ansiedade, autopunição, entre outros sentimentos que causam desconforto.

O efeito espelho não reflete só as nossas negatividades, mas também toda luz que somos. Quando reconhecemos no outro características das quais gostamos, como generosidade, amorosidade, prestatividade, desapego, beleza, entre outros, também estamos vendo o que somos.

Portanto, ao olharmos pro outro temos a oportunidade de escolher o que queremos refletir, ou melhor, em que queremos colocar foco. Ontem conheci duas pessoas lindas, que tinham muitas qualidades. Meu encanto foi tanto que mal consegui reparar em algum “problema”. Já estava em gratidão pela oportunidade delas entrarem em minha vida quando me dei conta de que elas eram também o meu espelho. E isso me alegrou ainda mais.

O convite de hoje é para observarmos o que nos incomoda no outro e tentar encontrar aquela característica em nós. E em seguida tentar dizer para si mesmo: “Eu sou <o defeito>.” Repita essa frase várias vezes e perceba o que acontece no corpo, se existe contração ou se é leve. Repita até sentir que seu corpo “ouviu” essa informação.

Namastê!

Danielle Carneiro

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9 comentários sobre “O outro como espelho

  1. Nossa quão interessante e esse texto, fiquei muito envolvido o tempo todo e de mente aberta.

    Gostei muito e pretendo começar a praticar a observância em mim mesmo.

    Obrigado pela partilha .

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  2. Sensível e muito interessante.
    Despertou a vontade de estar mais e mais atenta a cada movimento emocional.
    Agradeço a oportunidade de reflexão.
    Grande bj com muita admiração.

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  3. Dani,
    Adorei suas palavras, muito significativas, retratam a vivência… retratam seu caminho e não vejo fórmula mais eficiente do que caminhar junto, trocando experiências. Parabéns, sucesso ❤

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  4. Muito relevante nos lembrarmos disso. Passamos parte significativa do nosso tempo escondendo nossos “defeitos” e julgando os outros. Se tão somente aceitarmos, seria mais leve e verdadeiro, né? Ótimo texto, Dani.

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  5. A-D-O-R-E-I!!!
    Obrigado por abordar algo tão profundo de forma simples e agradável.
    Eu só vejo amor nesse blog!
    GRATIDÃO!

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